Em março de 2025, o g1 publicou uma reportagem com dados do Ministério da Previdência Social: em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos do trabalho por transtornos mentais — o maior volume em pelo menos dez anos e um salto de 68% em relação a 2023.
Os números importam. Mas, sozinhos, não dizem o que fazer quando a pessoa já não consegue dormir, concentrar-se ou atravessar a jornada sem crises. Este texto complementa aquela cobertura: traduz o recorde para o cotidiano, aponta o que a estatística deixa de fora e discute o cuidado possível — para quem se afastou, para quem ainda está no limite e para organizações que tratam saúde mental como tema de compliance.
O que os dados realmente medem
Os afastamentos citados pelo g1 correspondem a benefícios por incapacidade temporária concedidos pelo INSS quando o trabalhador precisa ficar mais de 15 dias longe do trabalho e passa por perícia. Não são atestados curtos, nem o total de pessoas em sofrimento. Uma mesma pessoa pode ter mais de uma licença no ano; por isso, o dado conta afastamentos, não indivíduos.
Em 2024, o INSS concedeu cerca de 3,5 milhões de licenças por todas as causas. Desses, 472 mil foram por questões de saúde mental. Ansiedade e depressão lideraram. A duração média relatada na reportagem foi de cerca de três meses, com benefício médio próximo de R$ 1,9 mil — um impacto previdenciário que pode ter chegado a quase R$ 3 bilhões.
O perfil mais frequente: mulheres (64%), idade média de 41 anos. Estados populosos concentram o volume absoluto; proporcionalmente à população, Distrito Federal, Santa Catarina e Rio Grande do Sul apareceram no topo. Nenhum desses recortes substitui a história de quem vive o sintoma.
Por que o recorde não se explica com uma única causa
Especialistas ouvidos pelo g1 apontam um emaranhado: cicatrizes da pandemia, luto, isolamento, custo de vida, informalidade, menor estabilidade, “pejotização”, equipes reduzidas e ritmo que não voltou ao patamar anterior. A OMS estima perda global de 12 bilhões de dias úteis por ano devido a depressão e ansiedade.
Há ainda um efeito de visibilidade. Fala-se mais de saúde mental; profissionais reconhecem melhor crises de ansiedade e quadros depressivos. Isso não infla o sofrimento: torna visível o que antes era mascarado por “estresse”, “fase ruim” ou pedido de demissão silenciosa.
A sobrecarga das mulheres aparece com clareza nos dados. Elas sustentam quase metade dos lares, ganham menos em grande parte das ocupações, acumulam trabalho remunerado e cuidado e sofrem mais violência. Pedir ajuda também é, em média, mais frequente entre elas — o que aumenta diagnóstico, sem reduzir a desigualdade que adoece.
O que a estatística esconde: burnout, atestados curtos e o medo de parar
Burnout quase não aparece na lista principal: cerca de 4 mil afastamentos no período analisado pelo g1. Isso não significa que o esgotamento seja raro. O diagnóstico ainda é difícil, e muitos quadros entram como ansiedade ou depressão. Quem só entrega atestados de poucos dias também fica fora dessa série.
Há, ainda, quem continue trabalhando doente. Medo de perder o emprego, de ser visto como frágil ou de não conseguir o benefício atrasa o pedido de ajuda. Quando a licença finalmente chega, o quadro já está grave. O recorde, portanto, é ao mesmo tempo alerta e subestimação: mede o que atravessou a perícia, não tudo o que adoece nas empresas, no trabalho informal e nas jornadas invisíveis.
Afastar-se não é fracasso. Também não é o fim do cuidado
Licença pode ser o primeiro gesto de proteção: interromper a exposição, iniciar tratamento, dormir, retomar alimentação e vínculos. Transformá-la em culpa (“os outros aguentam”) só agrava o quadro. Transtornos mentais podem ser tão incapacitantes quanto outras doenças — e merecem o mesmo respeito clínico.
O risco está no retorno automático. Sem psicoterapia, avaliação médica quando indicada, renegociação de carga e limites claros, a pessoa volta para o mesmo desenho de metas, assédio ou conexão permanente. A licença trata o colapso; o ambiente pode continuar produzindo o adoecimento.
- Use o afastamento para tratar, não apenas para “descansar e voltar igual”.
- Combine, quando possível, acompanhamento psicológico e orientação médica.
- Documente sintomas, gatilhos e o que piora no trabalho — isso ajuda o cuidado, não só a perícia.
- Planeje o retorno com gradualidade: horário, demandas e apoio da liderança.
- Peça ajuda se pensamentos de desesperança ou autoagressão aparecerem. SAMU 192, emergência ou CVV 188.
O que empresas podem fazer além de campanha de setembro
A reportagem do g1 lembra a atualização da NR-1: riscos psicossociais entram no gerenciamento de segurança e saúde no trabalho e podem ser fiscalizados. Metas excessivas, jornadas extensas, falta de suporte, assédio, conflitos e baixa autonomia deixam de ser “cultura pesada” para se tornar risco ocupacional.
Norma não substitui cultura. Palestra, aplicativo de meditação e cesta de bem-estar não compensam equipe reduzida nem retaliação a quem pede ajuda. Prevenção concreta reorganiza o trabalho, protege canais de escuta, prepara lideranças e acompanha afastamentos sem caça às bruxas.
Quando a terapia entra nesse cenário
Psicoterapia não emite laudo previdenciário nem substitui perícia, psiquiatria ou conformidade trabalhista. Ela pode ajudar a nomear o que está acontecendo, reduzir autocrítica, elaborar luto e medo financeiro, reconstruir limites e preparar um retorno que não seja apenas sobrevivência.
Para quem lidera equipes, o cuidado individual também importa: a pressão de “segurar o time” adoece gestores. Para quem está informal ou “PJ”, o recorde do INSS é um espelho incompleto — o sofrimento existe mesmo sem benefício. Nesses casos, buscar atendimento cedo pode evitar que o colapso seja a única porta de saída.
Perguntas frequentes
Afastamento por saúde mental é sinal de fraqueza?
Não. O benefício existe quando um quadro de saúde impede o trabalho por mais de 15 dias. Transtornos mentais podem ser incapacitantes e merecem avaliação profissional, não moralização.
Por que o burnout aparece pouco nas estatísticas?
O reconhecimento diagnóstico ainda é irregular. Muitos casos entram como ansiedade, depressão ou outros transtornos, o que subestima o esgotamento ligado ao trabalho.
Licença resolve o problema de saúde mental no trabalho?
Pode ser necessária para proteger a pessoa e permitir tratamento. Sem mudanças nas condições de trabalho e sem cuidado contínuo, o retorno tende a repetir o ciclo de sobrecarga.
